quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A XACINA DO TESTO - Roberto Pompeu de Toledo (publicado na VEJA)



Apezar da xuva, muita jente esteve prezente ao ezersisio de jinastica qe teve lugar no colejio. Omens, mulheres e criansas no fim cantaram o Ino Nasional. Ouve pesoas qe ate xoraram de emosão cuando a festa terminou. Oje qem qiser pode asistir a nova aprezentasão.
A impressão é de escombros do que foi outrora a língua portuguesa em sua forma escrita. Como se tivesse sido atingida por uma bomba e alguns destroços irreconhecíveis houvessem sido resgatados da hecatombe. A comparação não é absurda. Tem o efeito de uma bomba a radical reforma ortográfica defendida pelo site Simplifi­­cando a Ortografia (simplificandoaortografia.com), criado pelo professor de português Ernani Pimentel. Sua proposta é acabar com letras que não se pronunciam, como o “H” no início de certas palavras e o “U” que se segue ao “Q” em “quintal” e “querido”, assim como a duplicidade de representação do mesmo som em “S” e “Z”, “SS” e “Ç” ou “G” e “J”.
Não é uma proposta inovadora. Para citar uma das que já se apresentaram com espírito semelhante no passado, o general Bertoldo Klinger, figura preeminente da Era Vargas, não só formulou a sua como a praticou – ele grafava seus textos segundo as regras que inventou. O general (aliás, jeneral) Klinger, em quem o reformador da língua escrita se misturava ao reformador do povo brasileiro, explicava: “Ortografia é lojica. Lojica é ordem. Sem ordem não a nasão. Logo, não a nasão sem ortografia lojica”.




terça-feira, 30 de setembro de 2014

Músicas de protesto







A poesia na ditadura militar - Poesia marginal


A poesia marginal recebeu este nome porque poetas abandonaram os meios tradicionais de circulação de suas obras (livros, revistas e jornais) e buscaram meios alternativos, divulgando suas obras por meio de cópias mimeografadas, vendidas de mão em mão, a baixo custo, nas ruas, praças e universidades. *Mimeógrafo era uma "máquina primitiva" e poderosa. Com ele,  sonhava-se a revolução. Nele, imprimiam-se panfletos que pretendiam mudar o mundo. Acreditava-se na possibilidade de indignação dos que ainda não sabiam dos fatos que estavam ocorrendo. Toda uma geração de poetas se editou e correu noites pelos bares divulgando o seu trabalho. Foi o modo encontrado para aqueles que queriam se expressar em pleno regime de ditadura militar. Era a voz do gueto. Geração mimeógrafo: poesia alternativa, atitude do poeta como parte da poesia.

Heloísa Buarque de Hollanda publicou o livro “26 Poetas Hoje”, reunindo poemas de 26 poetas da geração mimeógrafo, verdadeira antologia da poesia marginal.
*O mimeógrafo, para quem nunca ouviu falar disso, funcionava assim: o papel era colocado de um lado, girava-se a manivela para girar o cilindro do meio no qual estava enrolada a matriz, que passava por uma espécie de esponja embebida em álcool. O papel saía do outro lado, impresso em letras roxas borradas, dependendo da quantidade de álcool que fora colocado.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

CINEMA - A vasta produção cinematográfica sobre a ditadura permite conhecer e debater diferentes narrativas sobre o período.


Uma conspiração internacional liderada pelos Estados Unidos. Mensagens cifradas, tortura, assassinatos. Gritos. Sussurros. Medo. A história da ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985) é povoada por elementos que renderiam um filme. Esse período não ficou imune ao registro crítico, e rendeu não apenas um, mas muitos filmes.

São dramas históricos, documentários, romances e até filmes infantis realizados desde o regime de exceção até hoje. 








sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Como não se deixar contaminar pelas falácias do período eleitoral



01-    O estilo Odorico: Suspeite do conjunto de expressões destinado a reduzir o impacto das palavras, como se isso diminuísse o impacto da realidade adversa, como por exemplo: a necessidade de “realinhamento de tarifas públicas” em lugar de “aumento de energia e gasolina”, “estiagem histórica” ou “crise de mananciais” em lugar do impopular “racionamento”.

02-   Vazio comunicativo: Construções de frases com que todos concordam, mas nada especificam, como por exemplo, “A cidade precisa de saúde”, “o futuro depende da educação”, padecem de detalhes que as transformem numa proposta concreta. Tais generalidades são úteis a candidatos porque compromissos explícitos assumidos podem ter um preço alto a pagar durante o mandato.

03-   Criar reservas mentais: Não implicação lógica entre premissas e conclusão: o que é concluído pode ser verdadeiro, mas não pelos motivos alegados. Dificilmente alguém discordaria da resposta.

04-   Distorção deliberada: Distorcer ou atribuir ao oponente um ponto de vista falso sobre uma questão é uma falácia que só se combate com pesquisa por parte do eleitorado, o que raramente ocorre. Em 1945, o presidenciável Eduardo Gomes, brigadeiro, declarou que não queria os votos da ”malta de desocupados que frequentava os comícios de Getúlio Vargas” Seus oponentes retiraram a palavra “malta” (bando) do contexto e espalharam que o brigadeiro se referia aos “operários que levam suas marmitas pelas linhas férreas”, os marmiteiros. Em outras palavras, equivalia a dizer que ele repugnava o voto da população de baixa renda. Então, Gomes virou um elitista aos olhos do eleitorado.

05-   Driblar a obrigação de provar: Desconfie ao menos de três formas mais frequentes de evitar a obrigação de oferecer evidências para sustentar um argumento:
1)    considerar óbvio que não há cabimento em questionar a afirmação. “Ninguém em seu juízo perfeito pode ser a favor da legalização da maconha.”
2)      O candidato se coloca como a garantia de correção daquilo que ele mesmo afirma. “Estou convencido de que...”
3)      Elaborar frases em que um comportamento isolado é generalizado, um traço específico vira um traço comum.

06-   Ignorar a questão concreta: É discorrer sobre algo paralelo à questão central, sem parecer que se muda de assunto. “O senhor é contra ou a favor da volta da CPMF?” “Veja bem: A captação de recursos para a saúde... blá, blá, blá... e fiz mais pela saúde ... blá, blá, blá... não se trata de onerar a carga tributária... blá, blá, blá...”

07-   Atacar a pergunta: Quando o governo não tem como defender um ato governamental, reage a um pedido de CPI pela oposição, dizendo que se trata de manobra eleitoreira. Quando a oposição quer desviar a atenção sobre uma ação do governo, faz o mesmo.

08-   Tirar o corpo fora: O orador justifica um erro pela tradição ou por um equívoco similar do rival feito tempos antes. Para não levar a culpa por algo, argumenta-se que as coisas sempre foram feitas daquela maneira ou o rival cometeu o mesmo deslize.

09-   Questão complexa: Uma afirmação prévia vem embutida numa pergunta ou numa afirmação. “A eleitoreira política social do governo gastou milhões do Tesouro”: o pressuposto é que a política social é eleitoreira.

10-   Efeito dominó: é concluir de uma proposição uma série de fatos ou consequências que podem ou não ocorrer. É um raciocínio levado indevidamente ao extremo, às últimas consequências. “O álcool e uma dieta pobre também são grandes assassinos. Deve o governo regular o que vai à nossa mesa? A perseguição à indústria de fumo pode parecer justa, mas também pode ser o fim da liberdade” (Veja, agosto 2000: 36) (JLF)

Rev. Língua Portuguesa, set 2014, Ano 9